Este artigo tem como objetivo analisar as contribuições de quatro etnografias distintas que focam na mobilidade e nos movimentos sociais, destacando suas metodologias inovadoras e a forma como os pesquisadores não apenas observam passivamente os movimentos de seus objetos de estudo, mas também adaptam suas próprias práticas de pesquisa em resposta a essas dinâmicas em constante mudança. Os estudos em questão, conduzidos por Karina Biondi (2018), Renan Pereira (2022), Gabriela Marcúrio (2021) e Sara Munhoz (2020), que oferecem perspectivas valiosas sobre como abordar e compreender as complexas dinâmicas sociais da contemporaneidade, enfatizando a importância de considerar as experiências individuais e as nuances contextuais. Neste contexto, exploraremos como essas etnografias fortalecem a noção de que o espaço é uma construção emergente das práticas de movimento e como a mobilidade se tornou uma característica fundamental da vida social contemporânea.
Antes de considerar as obras dos respectivos autores que irão, justamente, compor o trabalho há de fato reconhecer um paradigma evidenciado pela Antropologia e suas perspectivas teóricas que fora intrinsecamente, conectadas a conceitos tidos como dados, como grupos, lugares e culturas. A própria conclusão do artigo da Marcúrio (2021) iria definir e não definir o que é uma comunidade, fugindo do plano do dicionário, jurídico e político sobre aquilo que irá ligar as pessoas de Paracatu de Baixo, isto é, fugindo de noção estática das práticas estatais e empresariais (Marcúrio, 2021). Ou até, propositalmente fará Munhoz com o seu estudo das noções de família no antro jurídico, e o que este lugar compreende dessa instituição e o cerne, ao que serei breve neste momento, a inteligência com a qual a jurisprudência lida com os movimentos da sociedade brasileira, resumindo a ela a momentos estáticos e processuais, com fixações provisórias e céleres para domínios do Tribunal (Munhoz, 2020). E, assim, confirmar que há de estudar a complexidade e a fluidez das realidades sociais, que serão tratadas no âmbito de etnografar uma descrição empírica qualitativa.
Observamos, então, com perspicácia que a perspectiva mais contemporânea nos estudos acerca da mobilidade transcende as fronteiras das disciplinas, apontando para abordagens inovadoras concernentes aos processos sociais vinculados aos deslocamentos, frequentemente investigados por meio da etnografia. Essa renovação se manifesta, sobretudo, no terreno do empirismo, no qual os pesquisadores se aventuram para além dos limites convencionais da pesquisa.
O espaço não é mais uma categoria de atributos ontológicos fixos e dados, mas um devir, uma propriedade emergente das relações sociais. Abrir o espaço para o tempo resulta em trazer o movimento das pessoas e a mudança para o centro da reflexão. [...] o espaço não é um palco pré-construído em que as coisas acontecem, mas uma área ou região criada e construída por práticas de movimento que estão acontecendo (Vidal e Souza, 2021, p. 12-13).
Assim sendo, essa transformação paradigmática nos estudos de mobilidade enfatiza a necessidade de adotar uma abordagem mais dinâmica, que reconheça a complexa conexão entre sujeitos, objetos e espaços em perene transformação, ressaltando a importância de considerar as experiências individuais e as complexas variáveis contextuais na compreensão dos signos e até de uma memória ecológica. Assim sendo, como demonstrado desde os estudos de Boas sobre o potlatch, Malinowski acerca do kula. Em muitos casos, a manutenção do idioma original visa preservar a singularidade do que está sendo transmitido, enquanto, em outros, reflete uma estética intrínseca às narrativas. No entanto, existem termos que, mesmo quando traduzidos, inclusive no contexto da mesma língua, perderiam sua complexidade e riqueza de significado, destacando a importância da antropologia em capturar o diverso sistema de signos das sociedades em estudo, assim como fará Biondi (2018) com a utilização crua dos termos recorrentes em uma comunidade em uma situação específica e suas complexidades de algo em movimento.
A autora, desse modo, adota posturas metodológicas para lidar com o material etnográfico, cuida com o movimento a partir de uma visão interna, permitindo uma compreensão mais rica e autêntica que enfatiza a importância de descrever as diferenças presentes no movimento, evitando a homogeneização dos contextos, além de destacar a necessidade de subordinar o movimento a contextos amplos. Sendo assim, Biondi (2018) reconhece a complexidade do material etnográfico, onde cada termo está interligado. Isso ressalta a importância de adotar abordagens flexíveis e sensíveis ao contexto ao realizar pesquisa etnográfica, reconhecendo a singularidade das realidades estudadas, já que análise do PCC revela uma natureza complexa e fluida, caracterizada pela ausência de caminhos predefinidos ou objetivos comuns, sem uma estrutura rígida ou teleológica. Isso implica que a compreensão do PCC não pode ser simplificada, mas requer uma abordagem que leve em consideração as múltiplas perspectivas que o compõem. Além disso, as ideias dentro do PCC são constantemente moldadas pelas condições contextuais e pelas forças envolvidas, resultando em uma evolução contínua, enfatizando a importância de uma abordagem sensível ao contexto e às dinâmicas para uma compreensão completa do movimento que, o vendo de fora, pareceria repleto de lacunas e divergências internas que se congraçam o PCC.
Das complexas dinâmicas sociais e criminais, a ideia de movimento emerge como um conceito fundamental para a compreensão das ações e intenções dos envolvidos com a circulação de ideias divergentes e agendas que estão em constante evolução. Portanto, a noção de movimento transcende a ideia de ações isoladas e estáticas, destacando para com a dinamicidade e a fluidez das relações sociais e criminais, bem como a compreensão de que essas ações são moldadas por uma multiplicidade de fatores e influências em constante mutação. Podendo, logo, a ótica da autora instalada no movimento não ter uma observação do observado, mas sim ela própria inserida nessas divergências, via como eles viam, como um ponto de fuga único, mas não totalizante do cenário.
Isso porque, se cada posição no interior do movimento oferece uma vista singular, nenhum teve a mesma visão que o outro. Minha visão, como a deles, é singular. O que vi, portanto, foi apenas uma dentre as infinitas possibilidades. Como afirmei anteriormente, instalada no movimento, eu não via o que os malandros viam, mas via como eles viam. (Biondi, 2018, p. 304)
Por isso, implica-se que as ideias não são estáticas, mas sim dinâmicas, capazes de se adaptarem às transformações que ocorrem no contexto de um movimento, já as ideias são moldadas e influenciadas pelas forças que as impulsionam, e essas forças são moldadas pelas condições situacionais em que as ideias são articuladas e debatidas e para Pereira (2022), a complexidade das experiências dos interlocutores em relação à seca vai além das simplificações e das visões estáticas do tempo histórico. Ele também introduz a distinção crucial entre o tempo como memória e o tempo como movimento, evidenciando que o tempo é um conceito moldado por uma rede de relações em constante evolução. Essa abordagem ressalta a dinamicidade e a mutabilidade inerentes tanto às ideias quanto ao tempo, destacando a necessidade de considerar as complexas interações que permeiam as experiências humanas e sociais.
Durante a coleta de dados, as narrativas e lembranças dos participantes vinculadas ao ambiente natural são meticulosamente documentadas. Em seguida, Pereira (2022) em sua análise dos dados é conduzido com o intuito de detectar tendências e tópicos, viabilizando a interpretação dos achados apoiada em teorias relacionadas à memória ecológica e às relações entre seres humanos e o ambiente, em que os resultados são posteriormente compartilhados por meio de um relatório de pesquisa que adere aos padrões éticos adequados, ao mesmo tempo que o pesquisador mantém uma reflexão constante sobre sua abordagem e interações. Sendo assim, a "nostalgia ecológica" emerge como um conceito que enfatiza a estreita conexão entre memória e um cenário ambiental frequentemente afetado. Essa ligação afetiva se estabelece entre a memória e ações voltadas para a preservação do ambiente, com as ideias entre o passado e o presente, permitindo aos indivíduos reconhecerem suas identidades e conexões com os locais em que viveram, contribuindo para a contextualização das transformações ocorridas ao longo do tempo. A memória ecológica, portanto, age como uma influência que entrelaça passado, presente e futuro, resultando em uma compreensão mais profunda das experiências individuais e do contexto atual, dado o relato:
Tão rapidamente os tempos mudam e passam, mais os velhos de minha pesquisa (além de serem a ‘boa memória’ pela qual são reconhecidos em Floresta, Petrolândia e Serra Talhada) se tornam as minhas ‘boas memórias’. Os seus ‘conselhos’ e todo o ceticismo com o qual olham para as coisas no ‘tempo de hoje’ me serviram, aliás, para identificar o que há de diferente e de habitual em meu próprio tempo, enfim, pelo menos do que sobrou de nossa ‘fartura’, certamente, em um dos mais miseráveis tempos já vividos. (Pereira, 2022, p. 1613)
A riqueza de significados que permeia a ideia de comunidade está profundamente entrelaçada com uma série de dinâmicas em constante movimento, que já na leitura de Márcurio (2021) sob esses movimentos, abrangem-se uma ampla gama de aspectos, incluindo deslocamentos territoriais, a mobilidade de pessoas entre as áreas rurais e urbanas, os ciclos agrícolas, as correntes do rio Gualaxo do Norte e até mesmo os rituais católicos. O que então aparece no contexto são, em essência, o resultado de um movimento primordial, onde as memórias do passado se tornam vivas e palpáveis, onde a circulação, as trocas e os fluxos desempenham um papel fundamental na definição da própria essência da comunidade, e no trabalho de Gabriela (2021), é contínuo desastre que vem ocorrendo até o presente.
Quando observamos o caso específico de Paracatu de Baixo, uma comunidade que contava com trezentos habitantes antes da trágica ruptura da barragem de Fundão em 2015, somos confrontados com a devastação provocada pelo despejo de cerca de 50 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro. Esse catastrófico evento forçou as famílias a um deslocamento compulsório em direção à sede municipal, junto com essa dolorosa mudança veio a perda das atividades agrícolas, que constituíam não apenas a principal fonte de subsistência, mas também um elo vital com a alimentação e a cultura local. Como resultado, os moradores de Paracatu de Baixo se viram envolvidos em complexas disputas legais, frequentemente recorrendo a um método comparativo para examinar e contrastar as diferenças entre suas vidas antes e depois do trágico desastre da barragem, criando uma ruptura daquilo que era as vidas do povo de Paracatu.
Os habitantes de Paracatu de Baixo imersos em intensos embates jurídicos, que se desdobram em diversas instâncias, como reuniões, assembleias e audiências judiciais, usando os povos de um método comparativo para avaliar e discernir as diferentes fases de suas vidas, antes e após a devastação causada pelo colapso da barragem.. Essa abordagem implica o uso do passado como um referencial essencial para embasar suas tomadas de decisão e diálogos no presente. Enquanto se direciona a atenção para essas práticas e reconhece o papel central da memória na tessitura das narrativas pós-tragédia, evidenciando que os movimentos assumem uma função vital na caracterização da vida em Paracatu de Baixo, tornando-se uma parte intrínseca da experiência da comunidade, já que reviver aquele momento de destruição, não tão somente é como elemento que já aconteceu, mas algo que vem acontecendo, já que houve uma total mudança na vida ocasionada pela a empresa Vale e o movimento da lama que arrastou esse sofrimento até as rotinas jurídicas, as quais os povos daquela região agora passam.
É imprescindível ressaltar que esses movimentos comunitários se distinguem nitidamente dos movimentos impostos pelo desastre da barragem e pelas empresas mineradoras. A hipótese em análise sugere que esses eventos representam consequências de uma configuração estática que resulta em destruição e sofrimento, contrastando profundamente com a vitalidade e a organicidade dos movimentos inerentes à vida comunitária, porém compreende-se uma realidade em constante fluxo, afastando-se da busca por representações estáticas do passado e do presente.
Ressalta-se que o sofrimento humano, embora inegável e muitas vezes angustiante, não pode se tornar o único fator determinante em uma decisão judicial, onde nas decisões jurídicas, transfiguram-se em papéis processuais e uma tese que irá ser disposta friamente pelo juíz . Essa tese não pode e nem tenta abordar plenamente as complexas responsabilidades e situações que uma situação pode abarcar, assim como o olhar das empresas, o plano judicial também pensa nos problemas de modo estático, singular e célere, para assim conceber uma única resposta.
Não obstante é notável convergência entre o universo jurídico e o cenário digital, especialmente no âmbito do Superior Tribunal de Justiça (STJ), como estudado por Munhoz (2020), que analisa tanto o processo jurisprudencial quanto a lógica algorítmica, as quais empregam estratégias semelhantes, adotando prefixos de segurança, confiabilidade e autoridade em suas abordagens, embora suas operações difiram, no desafio comum de representar de modo eficaz realidades em constante mutação, ainda apoiam-se no binarismo como pilar central, embora essa simplificação esconda a verdadeira complexidade do processo. Ambos possuem a habilidade de estabelecer fixações temporárias, como teses e definições, que têm o potencial de moldar decisões e contribuir para a harmonização do sistema jurídico, mesmo em um cenário digital que está sempre em transformação, ou seja, existe um sistema virtual que encare os saberes do juiz supremo para a compreensão do direito estático, que na visão de todos ali, seria imparcial.
Por fim, cabe trazer como relevante para esta análise, o excerto de Munhoz (2022), este trecho aborda a natureza do direito e sua relação com a antropologia, destacando que o direito não é algo uniforme, estático e definitivo.
Como já muito destacado pela antropologia, não há um direito homogêneo, estável e encerrado. Se o dinamismo faz parte de sua própria definição, é olhando para os lugares em que a diferença – que se propõe homogeneizante, unificadora – se produz cotidianamente que podemos entender que é na variação, nas cristalizações que não duram mais que instantes, que a rigidez jurídica impõe seus efeitos de verdade. (Munhoz, 2020, p. 236)
Em vez disso, o direito é dinâmico por natureza, sujeito a mudanças e adaptações constantes. Para compreender essa dinâmica, é importante observar como o direito é aplicado na prática, especialmente nos lugares onde tenta impor uniformidade e homogeneização. A ideia central aqui é que o direito não é uma entidade fixa, mas algo que evolui e se adapta às diferentes situações e contextos. Ele pode parecer rígido em suas regras e regulamentos, mas sua aplicação real ocorre em situações cotidianas onde surgem diferenças e nuances. São nesses momentos de variação e cristalização temporária que a rigidez do sistema jurídico se torna evidente.
Em outras palavras, o direito pode ter regras gerais e princípios, mas sua aplicação prática envolve situações específicas que podem desafiar essas regras e criar interpretações variadas. Portanto, a rigidez do direito se manifesta quando ele tenta impor uniformidade e padronização, apesar das diferenças e particularidades que surgem na prática e, sobretudo, a pesquisa qualitativa ajuda a entender essa dinâmica ao estudar como os diferentes contextos culturais e sociais movem as situações.
Sendo assim, para com a pesquisa etnográfica, é lançado um desafio à perspectiva estática da pesquisa, realçando a sua intrínseca dinâmica e adaptabilidade constante, revelando os estudos como a pesquisa qualitativa que se desdobra nas complexidades da vida cotidiana, onde emergem nuances e particularidades que desafiam as abordagens e metodologias convencionais. Assim, a flexibilidade inerente à pesquisa qualitativa se manifesta quando se procura compreender a complexidade da realidade empírica, apesar das inerentes complexidades inerentes à pesquisa social, destaca-se, ainda, a fluidez das realidades sociais e a necessidade premente de levar em consideração as experiências individuais e o contexto ao analisar esses movimentos que poderão ser concebidos de dores, memórias e tudo aquilo nos transformam humanos com paixões e razão.
Referências Bibliográficas
BIONDI, Karina. 2018. “Como Descrever uma Onda? Uma abordagem metodológica para a etnografia de um movimento”. Anuário Antropológico, v.43, n. 2. https://journals.openedition.org/aa/3300
MARCURIO, Gabriela. 2021. “Movimentos semânticos e pragmáticos de uma comunidade”. In: SOUZA, Candice Vidal e; GUEDES, André Dumans (org.). Antropologia das mobilidades. 1a ed. Brasília: ABA Publicações, p. 401-430. http://www.aba.abant.org.br/publicacoes/publicacao-72934.
MUNHOZ, Sara. 2020. “Confiscações Semânticas e Afetivas: famílias na jurisprudência do Superior Tribunal Federal”. In: Insurgências. Ecologias Dissidentes e Antropologia Modal. <https://files.cercomp.ufg.br/we by/up/688/o/insurgencias.pdf>.
PEREIRA, Renan. 2022. Áridas Memórias. Seca, tempo e história no Sertão de Pernambuco. Anais da React – Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia. V. 5, N. 5. https://ocs.ige.unicamp.br/ojs/react/article/view/3708.
Vidal E Souza, Candice, e André Dumans Guedes. Antropologia das mobilidades. 1o ed, Associação Brasileira de Antropologia - ABA, 2021. DOI.org (Crossref), https://doi.org/10.48006/978-65-87289-16-8.